Saturday, 3 January 2009

Meias palavras

Ouve-se daqui as vozes na casa ao lado. Caem pelo tecto oco -que agora até os tectos são falsos-. Caem as palavras e uns sons de xilofone velho, mais o leve bater de chinelos no corredor que leva da varanda ao quarto.

Numa casa aqui ao lado. Sempre ao lado e tudo deixa de fazer sentido se é que é suposto haver algum em tudo isto que é a coisa a que se deu o nome de vida. Ou vidinha, que um diminuitivo fica sempre bem...

Depois, um pouco mais tarde, pego nas letras e junto-as todas. Faço palavras e deixo as frases de parte que o sentido é sempre uma coisa muito abstracta e do lado de fora nada soa como no lado de dentro -e estas coisas são já divagações estranhas aos crocodilos que caem de paraquedas em plena Patagónia- como tudo o que é visto pelo lado errado da folha de papel.

O chá sabe a verde e mel. Sabe a maçãs e canela. Sabe a tudo e a nada e os espelhos reflectem coisas. 

E se é possível que haja gémeos diferentes, saidos da mesma mãe à mesma hora mais minuto menos minuto -um preto e outro branco, ou negro e mais clarinho que isto são só palavras- é para mim também possível uma espécie de contrário.  

Na rua não faz sol nem frio nem chuva nem vento nem luar nem nada. Pelo menos hoje e agora que escrevo.

Wednesday, 24 December 2008

Hands up!


"Se um dia o diabo quiser faremos o crime perfeito..."


Sunday, 30 November 2008

se

Hoje não, só amanhã, mas isso não existe, que o hoje é eterno. Hoje, agora, e nada mais há. Nem horas, nem tempo, nem dias...

Algures não sei bem onde alguém acabou de ser morto a tiro neste mesmo instante, o mesmo em que não sei quantos putos mosca respiram pela ultima vez. Mas nada disso importa, são só estatística.

E nada de sentir demais hoje, que mais dias virão –se nenhum meteorito nos cair em cima- logo depois de acordar -se-.


Saturday, 29 November 2008

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Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.

Meu coração estoirou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!
Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...

Álvaro de Campos

Friday, 21 November 2008

Sopro

O tropeçar e a queda, o abismo ao fundo, metros sem rede e as asas abertas quase ao bater no chão. Abertas mas frágeis. Logo quebram e o corpo cai sem amparo. Quebram-se depois os ossos e rasgam-se as carnes. Mas há sempre um canto para servir de abrigo e uma manta para não deixar escapar o calor que ainda resta.

Depois as escadas voltam a chamar. Sobem-se os degraus um a um esquecendo que tudo tem um fim - e a escada não será diferente -. Último degrau, próxima queda, ciclo infinito, grande roda ou qualquer outro nome. A vida, talvez.

[ao lado, outras escadas, outras quedas, outros corpos. nas pontas do mundo as cordas da rede cortadas por quem a não quer esticada]

Thursday, 20 November 2008

Coiso...


Canções, escadas e moinhos de vento movidos a água. Seres pequeninos, gigantes, algodão aos molhos e tangerinas. Escadas, casas, ruas, a quase chuva e as pedras da calçada debaixo dos pés. Comboios, estacões, paragens, viagens. Árvores e grades e relógios partidos contra o céu. E palavras. Porque sim, eis tudo!

Sunday, 16 November 2008

Saturday, 15 November 2008

Sinos

E os fins são todos iguais não são? As seis tábuas do paralelipipedo bem envernizadas, as mesmas vozes que mais tarde acabam por ser abafadas pelo barulho da tasca, as almofadas ao quadrados e a ansiedade das larvas com fome...

O cangalheiro faz a conta ao fim do dia e deus queira que amanhã haja mais trabalho.

Just

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise

Black bird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
you were only waiting for this moment to be free

Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.

Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise,oh
You were only waiting for this moment to arise, oh
You were only waiting for this moment to arise

Paul McCartney, "Blackbird"

Friday, 14 November 2008

Absurdo:

do Lat. absurdu

s. m.,
contra-senso, disparate, dislate, tolice, paradoxo;

adj.,
contrário à razão, ao senso comum;
ilógico, contraditório, paradoxal.

Sunday, 9 November 2008

Chuvas

Chovem-me as letras em cima da cabeça como se fossem meteoritos. Vêm juntas em forma de palavras que se juntaram também em frases. Não param de cair, de bater... Dizem que vieram mostrar que existem, dizem que não querem ser esquecidas, batem, caem...

Procuro um abrigo mas não há.

Friday, 7 November 2008

Cores

E já está tudo inventado não é verdade? Não falo dos satélites e do resto que nos vai querer controlar daqui a uns dias, das camaras e do grande irmão escondido no bunker de ouro a espreitar quem mija no canto da parede e a que horas chegas a casa, se bem que isso também está mais que feito.

Dizem que acabaram as canções e todos os dias nos mostram o filme do dia pelas oito da noite que agora empura o dia por volta das cinco, dizem que isto está mau para que no outro dia de manhã as ovelhinhas o repitam a uma só voz "Isto está mau, isto está mau...", se calhar o grande irmão não passa de um reles pastor. "as ovelhas gostam de companhia, vão-se sempre juntando umas ás outras.". O rebanho engrossa "isto está mau, isto está mau" e enquanto fala não ouve nem vê. Para quê? Às oito saberão de tudo, de tudo o que quiserem que saibam. "isto está mau, isto está mau", e nos gabinetes cheios de mofo assinam-se resmas de papeis para tornar isto melhor.

Mais um decreto e não se pode faltar às aulas porque isso não pode ser considerado um direito. Não se falta e não há sermão nem responsabilidade e depois se houvesse agora também já não se chumba e as bicicletas não são prémios mas direitos. Criam-se assasinos de português, incapazes de somar e dividir. Passeiam-se com os afamados "Magalhães" debaixo do braço sem saber sequer quem deu o nome áquela máquina azul. Sem saber que houve tempos em que homens se faziam ao mar para matar e morrer. Sem saber que houve tempos em que nos diziamos donos de meio mundo. E agora? Esperamos ansiosamente que do outro lado do oceano haja alguém capaz de nos tornar a vida melhor. Ironias que também não hão-de perceber. Aumenta o rebanho...

Fazem ouvidos moucos e sorriem, as ovelhas negras. Sorriem e riem e rebolam no meio do caminho sem medo de serem pisadas. Aprenderam a levantar-se depressa e fugir dos pés ansiosos. Também se tornaram maiores que as outras, pelo menos maiores aos olhos, mesmo que só a cor pareça distingui-las. Dizem que isto está bom, que gostam de chuva quando ela cai e de sol quando ele nasce. Acreditam que o impossível é só uma palavra inventada que não faz qualquer sentido, parar é morrer e as tangerinas têm um lugar especial no mundo a par com os girassóis.

Dizem-se felizes e alimentam-se de algodão-doce.

Wednesday, 5 November 2008

Change!

Agora que o senhor Obama já tem lugar na casa branca, podia começar a campanha para que em Portugal houvesse também um primeiro ministro diferente.

Teria a sua graça, afinal Ele já vai para todo o lado, pelo que a diplomacia não lhe mete medo. E é azul. E tem a sua graça. Até um nome engraçado...

Magalhães. Voto nele!

knfkzdfgkowr

(e enquanto ando as pedras da calçada redundam nas conversas de sempre mais uma vez a conversa dos pombos das pombas um dois na mão e a voar numa árvore aparecida no meio do passeio desenha-se mais um traço e agora devem ser já mais de quinhentos na ponte as luzes iluminam um bando de gaivotas em linha recta que poderiam ser morcegos mas a cor não perdoa e os morcegos não são brancos mais uns dias e não restarão luzes pois as que se apagam ninguém volta a acender e os vidros partidos vão pelo mesmo caminho caminho igual ao dos buracos na estrada buracos nos bancos buracos em tudo buracos no peito de quem leva tiros e nas cabeças ocas de cérebro ausente)

Tuesday, 4 November 2008

Invariável

Cinco da tarde de um dia qualquer. Os pombos levantam dos telhados, cagam nas estátuas.